A caixa de estore: o buraco por cima da janela

Pode ter vidro duplo, perfil com câmaras e Uw certificado — e continuar a sentir frio junto ao vão. Por cima da janela há muitas vezes uma cavidade que liga a rua à sala, sem isolamento nenhum.

Janela de canto em PVC numa cozinha, com a caixa de estore por cima do vão
A caixa fica onde ninguém olha: por cima do vidro, dentro da parede

Porque é o ponto mais fraco do vão

Na literatura técnica de reabilitação térmica em Portugal, as caixas de estore são descritas como pontes térmicas planas, sujeitas às mesmas exigências que vigas e pilares. Não é uma imagem: é uma zona da envolvente onde a parede é interrompida e o isolamento não continua.

A isso junta-se uma segunda característica, que costuma surpreender: a mesma literatura classifica a caixa como um espaço fortemente ventilado, que além de isolamento precisa de vedantes próprios para impedir a passagem de ar para dentro de casa. Ou seja, o problema é duplo — falta isolamento e sobra ligação ao exterior.

É por isso que a caixa aparece nas listas de verificação profissionais. Nas recomendações da APCMC sobre instalação de janelas em obra, «confirmar se a caixa de estore está isolada» é um dos pontos a avaliar antes de montar a janela nova, ao lado do nivelamento do vão e da inclinação da soleira.

Nota honesta sobre números: circulam por aí percentagens muito precisas para a perda de calor atribuída à caixa. Não as usamos aqui — a fonte que mais se cita já não existe, e preferimos descrever o mecanismo, que é verificável, a repetir um número que não conseguimos confirmar.

Como se nota, em linguagem de quem vive na casa

Nenhum destes sintomas aponta para o vidro. Todos apontam para o que está por cima dele.

Frio que "cai" de cima

Sente-se ar frio a descer junto à janela, sobretudo à noite. Não vem do vidro nem das folhas: vem da caixa, que é o único ponto do vão onde muitas vezes não há isolamento nenhum entre a rua e a sala.

Corrente de ar com a janela fechada

A caixa liga o exterior ao interior pela abertura da fita e pelas folgas da tampa. Em dias de vento nota-se logo: a chama de uma vela junto à tampa inclina-se.

Ruído da rua que a janela nova não cortou

É a queixa mais frustrante depois de uma obra: trocou-se o vidro, pôs-se acústico, e continua a ouvir-se a rua. O som entra por onde entra o ar, e a caixa é uma cavidade aberta por cima do vidro novo.

Manchas ou bolor no teto junto ao vão

A superfície interior da caixa fica mais fria do que a parede à volta. O vapor de casa condensa aí primeiro, e a mancha aparece no canto superior do vão — não no vidro.

As três soluções, da mais barata à mais definitiva

A maioria das casas resolve o problema no primeiro degrau. Vale a pena saber os três antes de pedir orçamento, porque a diferença de preço entre eles é grande e nem toda a gente precisa do último.

1

Forrar a caixa existente por dentro

A caixa está sã, a tampa fecha, só falta isolamento

Aplica-se um revestimento isolante no interior da caixa — poliestireno moldado ou lã de rocha, na literatura técnica de reabilitação; hoje também painéis multicamada finos, feitos para caber onde o estore ainda tem de enrolar. É a intervenção mais barata do vão e faz-se pelo interior, sem mexer na fachada.

Limite: Não corrige uma tampa empenada nem uma caixa fissurada por onde entra água.

2

Tratar a tampa e as passagens de ar

Entra ar e ruído, mas a caixa está isolada ou já foi forrada

A caixa é, nas palavras da literatura técnica, um espaço fortemente ventilado: além de isolamento precisa de vedantes que impeçam o ar de passar para dentro de casa. Trata-se a folga da tampa, o furo por onde corre a fita (existem passadores com pelúcia para isso) e o remate entre a caixa e a parede.

Limite: Vedar tudo sem pensar na ventilação da casa é trocar um problema por outro — ver a nota mais abaixo.

3

Caixa nova, ou monobloco com a janela

A caixa está degradada, ou vai trocar a janela de qualquer forma

Em reabilitação profunda aplicam-se caixas pré-fabricadas já isoladas, ou caixas feitas inteiramente de material isolante. Quando a janela é nova, existe ainda a hipótese do monobloco: a caixa vem com a janela, de fábrica, e assenta pelo exterior — deixa de haver a cavidade que atravessa a parede.

Limite: É a solução mais completa e a mais cara. Só compensa dentro de uma obra que já ia acontecer.

Cuidado que se aplica aos três: vedar a caixa sem pensar na renovação do ar da casa muda o problema de sítio. A ventilação de edifícios é matéria regulada (Portaria 353-A/2013), e os aeradores auto-reguláveis instalam-se muitas vezes na própria caixa.

O momento certo é durante a troca da janela

Isolar uma caixa é barato. Como ordem de grandeza, o gerador de preços CYPE para reabilitação em Portugal orça a reabilitação energética de uma caixa tradicional de 110 cm, com painel flexível multicamada, em cerca de 35 € por unidade — valor de orçamentação, sem margem de retalho.

O que custa dinheiro é o acesso. Durante a substituição da janela a caixa já está aberta, o estore já foi desmontado e a equipa já lá está: o trabalho acrescenta minutos. Feito depois, isolado, implica voltar a abrir tudo — e aí o custo deixa de ser o material.

É também a razão pela qual falamos disto na medição e não no fim da obra. Preferimos dizer que a caixa precisa de intervenção antes de a fatura estar fechada, mesmo quando isso soma ao orçamento.

Vai trocar as janelas?

Calcule a estimativa da janela; a caixa avaliamos na medição, com o vão à vista.

Calcular a estimativa

Perguntas frequentes

Na literatura técnica de reabilitação térmica portuguesa as caixas de estore são tratadas como pontes térmicas planas, sujeitas às mesmas exigências que vigas e pilares. Traduzido: é uma zona da parede onde o isolamento simplesmente não existe, mesmo em casas com boas janelas. É por isso que aparece na lista de verificação de qualquer instalação séria — a APCMC inclui «confirmar se a caixa de estore está isolada» entre os pontos a avaliar antes de montar uma janela.

Muito provavelmente porque a obra tratou a janela e deixou a caixa como estava. É a situação mais comum que nos aparece: vidro duplo Low-E novo, perfil com câmaras, e por cima uma cavidade sem isolamento nenhum ligada à rua. O <a href="/guias/sinais-para-trocar-janelas/">guia dos sinais</a> explica como distinguir o que é da janela do que é do vão.

A colagem de um painel isolante no interior da caixa é das intervenções mais acessíveis que há num vão. Os dois cuidados que interessam: não reduzir o espaço a ponto de o estore deixar de enrolar, e não tapar a drenagem nem as passagens de ventilação previstas. Se a caixa tiver sinais de água ou a tampa estiver empenada, isolar por cima do problema só o esconde.

A literatura de reabilitação aponta poliestireno moldado ou lã de rocha aplicados no interior da caixa. No mercado português encontra também painéis multicamada finos, pensados para caixas onde sobra pouco espaço, e caixas pré-fabricadas inteiras em EPS de alta densidade para quando se substitui a caixa. A escolha depende sobretudo do espaço livre à volta do rolo.

Como ordem de grandeza, o gerador de preços CYPE para reabilitação em Portugal orça a reabilitação energética de uma caixa tradicional de 110 cm, com painel flexível multicamada, em cerca de 35 € por unidade em custo de orçamentação — sem margem de retalho. É pouco dinheiro comparado com o resto do vão, e é a razão pela qual quase nunca faz sentido adiar isto para depois da obra das janelas.

Pode, se se vedar tudo e não se pensar na renovação do ar. As caixas antigas ventilavam a casa sem ninguém pedir, e quando se fecham essas frestas a humidade que saía passa a ficar. A solução não é deixar a caixa a assobiar: é prever ventilação controlada — os aeradores auto-reguláveis, aliás, instalam-se muitas vezes na própria caixa, e a ventilação de edifícios é matéria regulada (Portaria 353-A/2013).

Não. A calculadora orça a janela e a montagem; a caixa avalia-se na medição, porque o preço depende do estado dela, do comprimento e de haver ou não espaço para o isolamento. Preferimos dizer isto à cabeça do que somar um valor que não conseguimos garantir sem ver.

Vale, e é das poucas melhorias de eficiência com custo baixo que se fazem sem obra. Mas seja realista com o resultado: resolve o frio que desce da caixa e parte do ruído, não transforma uma janela de vidro simples numa janela eficiente.

Frio que desce da caixa, mesmo com janela nova?

Vemos o vão inteiro na medição — janela, caixa e remates — e dizemos o que precisa mesmo de intervenção.

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